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A Travessia de uma Pioneira: O Legado e a Memória de Carminha Levy

Carminha Levy


A Travessia de uma Pioneira: O Legado e a Memória de Carminha Levy

Por Cida Medeiros

Nos últimos dias, a comunidade xamânica, a psicologia e todos aqueles que tiveram o privilégio de cruzar o caminho de Carminha Levy foram tocados por uma notícia marcante: a sua travessia para o outro lado da vida.

Sua partida aconteceu de forma serena, na passagem da noite — um portal aberto justamente no mundo onírico, o universo dos sonhos que ela tanto estudou, respeitou e desvendou como psicóloga junguiana e mestra espiritual.

Aos quase 92 anos, Carminha encerra sua jornada física após ter cumprido uma missão extraordinária. Pioneira do Xamanismo no Brasil, ela não apenas trouxe novos olhares para a cura e para a expansão da consciência, como também fundou o Instituto de Pesquisas Xamânicas Paz Geia, a primeira escola do gênero no país.

Um Sabedoria que Permanece

Falar de Carminha Levy é falar de coragem, vanguardismo e amor sagrado pela vida. Sua atuação aproximou o conhecimento das tradições ancestrais da psicologia profunda, criando pontes onde antes só existiam distâncias.

Para aqueles que tiveram a oportunidade de estudar, caminhar e partilhar experiências ao seu lado, fica o testemunho de uma Mestra Sábia, profunda conhecedora da alma humana, que ensinou que honrar quem transmitiu o saber e agir com a verdadeira gratidão — a essência do "Espírito de Aloha" — são pilares fundamentais para qualquer jornada de cura e individuação.

O Movimento do Legado

A despedida, marcada por ritos que celebraram tanto a sua dimensão humana quanto a sua conexão espiritual, marca o fim de um ciclo físico, mas o início da permanência de sua obra. O legado do Instituto Paz Geia e dos ensinamentos tradicionais, como a sabedoria dos Kahunas e o Xamanismo Matricial, segue vivo, guardado e propagado por mãos dedicadas e por mentes preparadas para honrar essa história.

O tempo agora é de acolher a saudade, silenciar a mente e permitir que os frutos de uma vida tão dedicada continuem a germinar no coração de quem aprendeu a olhar para o invisível com respeito e reverência.

À Carminha Levy, nossa mais profunda gratidão por tudo o que construiu, ensinou e semeou nesta existência. Sua luz e sua sabedoria permanecem acesas no coração da Terra e daqueles que continuam a caminhada.

Para maiores informações sobre a continuidade do trabalho do Instituto: www.pazgeia.org.br.

O Preço Invisível do Pertencimento

 


O Preço Invisível do Pertencimento

Por Cida Medeiros

Quando a necessidade de ser aceito se torna mais importante do que a liberdade de ser quem somos

"Todo ser humano precisa pertencer. Mas, quando o pertencimento exige que abandonemos nossa essência, ele deixa de ser abrigo e passa a ser prisão."

Existe uma necessidade que acompanha o ser humano desde o nascimento: pertencer.

Antes mesmo de desenvolvermos uma identidade, já dependemos do olhar do outro para sobreviver. Nos primeiros anos de vida, pertencimento não é apenas uma necessidade emocional; é uma necessidade biológica. Durante milhares de anos, ser excluído do grupo significava colocar a própria vida em risco. Nosso sistema nervoso aprendeu essa verdade muito antes de nossa consciência ser capaz de compreendê-la.

Talvez seja por isso que, ainda hoje, tantas pessoas permanecem em relações que as adoecem, aceitam ambientes que as diminuem ou silenciam partes importantes de si mesmas. Não porque lhes falte coragem, mas porque existe um medo muito mais profundo: o medo de deixar de pertencer.

A primeira linguagem do amor

Na infância, aprendemos rapidamente quais comportamentos nos aproximam do amor e quais parecem nos afastar dele.

Algumas crianças descobrem que precisam ser fortes.

Outras aprendem a não incomodar.

Algumas tornam-se responsáveis antes do tempo.

Outras acreditam que precisam salvar todos ao redor.

Essas estratégias foram inteligentes. Elas permitiram adaptação e sobrevivência. O problema começa quando continuam sendo utilizadas na vida adulta, mesmo quando já não servem ao crescimento.

Sem perceber, deixamos de agir por escolha e passamos a agir por lealdade.

A lealdade invisível

Toda família possui histórias, crenças e regras silenciosas.

Algumas são ditas em voz alta. Outras nunca foram pronunciadas, mas todos as conhecem.

"Aqui ninguém demonstra fraqueza."

"Dinheiro traz problemas."

"Quem se destaca é invejado."

"Mulheres precisam suportar tudo."

"Homens não choram."

Essas mensagens tornam-se parte da nossa maneira de enxergar o mundo.

Com o tempo, deixamos de perguntar se elas ainda fazem sentido.

Apenas continuamos repetindo.

É justamente aí que o pertencimento pode cobrar seu preço mais alto: quando permanecemos fiéis a histórias que já não expressam quem somos.

O conflito entre a moral e a consciência

A moral organiza os grupos. Ela estabelece regras de convivência e oferece estabilidade.

A ética, porém, nasce quando nos perguntamos se essas regras continuam favorecendo a vida.

Nem toda tradição merece ser repetida.

Nem toda lealdade produz saúde.

Há momentos em que permanecer fiel à própria consciência exige contrariar expectativas antigas.

E isso costuma provocar culpa.

Mas culpa nem sempre significa que estamos fazendo algo errado.

Muitas vezes ela apenas indica que estamos ocupando um lugar novo.

A coragem de diferenciar-se

Carl Gustav Jung chamou de individuação o processo de tornar-se quem realmente somos.

Esse caminho não significa romper com a família nem rejeitar nossas origens.

Significa algo mais delicado: reconhecer que recebemos a vida de nossos pais, mas que o sentido dessa vida precisa ser construído por nós.

Honrar nossas raízes não exige permanecer presos a elas.

Uma árvore saudável cresce porque suas raízes a sustentam, não porque a impedem de alcançar o céu.

Quando o corpo fala antes da mente

Nem sempre percebemos racionalmente que estamos presos a antigas lealdades.

O corpo costuma perceber primeiro.

Talvez você reconheça alguns desses sinais:

  • dificuldade em dizer "não";

  • culpa ao estabelecer limites;

  • medo constante de decepcionar;

  • sensação de estar vivendo um papel;

  • necessidade excessiva de aprovação;

  • ansiedade diante de conflitos;

  • impressão de que nunca é suficiente.

Essas experiências não são provas de fraqueza.

Muitas vezes revelam um sistema nervoso que aprendeu, desde cedo, que segurança dependia da aceitação dos outros.

O verdadeiro pertencimento

Existe um paradoxo que a maturidade nos apresenta.

Quanto mais tentamos pertencer sacrificando quem somos, mais nos afastamos de nós mesmos.

E quanto mais nos aproximamos da nossa verdade, maior é a possibilidade de construir vínculos autênticos.

O pertencimento saudável não exige máscaras.

Ele permite diferenças.

Não depende da perfeição.

Não exige que abandonemos nossa voz para sermos amados.

Talvez essa seja uma das tarefas mais difíceis da vida adulta: continuar amando nossas origens sem permanecer prisioneiros delas.

Uma pergunta que vale a pena guardar

Antes de tomar sua próxima grande decisão, faça uma pausa e pergunte a si mesmo:

Estou escolhendo porque isso expressa quem eu sou ou porque tenho medo do que acontecerá se eu deixar de corresponder às expectativas dos outros?

Essa pergunta não oferece respostas imediatas.

Mas pode abrir um caminho.

Porque a verdadeira liberdade não nasce quando deixamos de pertencer.

Ela nasce quando descobrimos que é possível pertencer sem abandonar a própria consciência.


Para refletir

Talvez o maior preço do pertencimento não seja aquilo que perdemos para permanecer no grupo.

Talvez seja aquilo que deixamos de nos tornar.

E, às vezes, a decisão mais amorosa que podemos tomar não é romper com nossa história, mas deixar de entregar a ela o direito de escrever o restante da nossa vida.


Veja também: O peso da bondade

O Preço do Pertencimento: Quando Escolhemos o Lugar em vez de Nós Mesmos

 


O Preço do Pertencimento: Quando Escolhemos o Lugar em vez de Nós Mesmos

Há histórias que chegam ao consultório e que, embora pareçam únicas, na verdade pertencem a muita gente. Uma dessas histórias começa assim: uma mulher, num ambiente de trabalho estruturado por regras rígidas, descobre um amor. Um amor real, inesperado, nascido no meio da rotina — mas proibido. A empresa não permitia envolvimentos entre pessoas de cargos diferentes. E ali, no cruzamento entre o coração e o contracheque, ela precisou escolher.

De um lado, um sentimento genuíno, ainda incerto quanto ao seu destino, carregado de dúvidas e riscos. Do outro, a segurança: o emprego que pagava as contas, que garantia o lugar dela no mundo, que a mantinha "dentro do sistema". Ela escolheu o emprego. Escolheu pertencer. E, ao fazer isso, sentiu que havia traído alguma coisa em si mesma.

Essa cena, ouvida em uma sessão de terapia, não é sobre certo ou errado. É sobre um conflito que quase todos nós já vivemos, ainda que em outras roupagens: o medo de não pertencer é capaz de nos fazer abandonar aquilo que mais nos representa.

Duas vozes que disputam o mesmo espaço dentro de nós

Existem, dentro de cada pessoa, duas vozes que raramente concordam.

Uma delas é a voz das regras — aquilo que aprendemos que precisa ser seguido para sermos aceitos. É a voz que vem de fora: da família, da empresa, da sociedade, da cultura em que fomos criados. Ela nos diz como agir, o que é permitido, o que é perigoso, o que pode nos custar o lugar que ocupamos.

A outra voz é mais silenciosa, mas insiste. É aquilo que sentimos ser verdadeiro, mesmo quando ninguém mais concorda. É o que nos faz sentir vivos, inteiros, coerentes com quem realmente somos — mesmo quando isso desagrada, incomoda ou rompe com o que se espera de nós.

Quando essas duas vozes entram em conflito, normalmente vencemos com a primeira. Não porque ela seja mais forte por natureza, mas porque o medo de ficar de fora — de perder o emprego, de perder a aprovação da família, de ser excluído de um grupo — é uma sensação muito antiga em nós. Ela vem de um tempo em que pertencer a um grupo significava, literalmente, sobreviver. E o corpo, mesmo hoje, ainda reage como se estivesse em jogo a própria vida.

Por isso é tão comum escolhermos a segurança em vez da verdade. E, ao fazer isso, sentimos que traímos algo essencial — não porque tenhamos feito algo "errado", mas porque, no fundo, sabemos que abrimos mão de uma parte nossa para caber em um espaço que exigia de nós menos do que somos.

O preço invisível de "se encaixar"

A mulher da nossa história não cometeu nenhum erro. Ela fez o que a maioria de nós faria: escolheu a sobrevivência. Mas essa escolha teve um custo silencioso — a sensação de estar traindo a própria alma para manter um lugar.

Esse é o dilema que se repete, com outros nomes e outros cenários, na vida de tantas pessoas:

  • Alguém que engole uma opinião importante numa reunião de trabalho, com medo de ser mal visto.
  • Um filho ou filha que segue uma profissão, um estilo de vida ou até um silêncio que a família espera, mesmo sentindo que não é o seu caminho.
  • Uma pessoa que permanece em um relacionamento ou em um grupo social por medo do julgamento de sair.
  • Alguém que abre mão de um sonho porque ele "não é bem visto" no ambiente em que vive.

Em todos esses casos, o padrão é o mesmo: escolhemos as regras do grupo em vez da nossa verdade, porque tememos o que aconteceria se ficássemos de fora.

Isso tem nome — e tem saída

O que talvez ninguém tenha dito a você é que esse conflito tem explicação. Ele não é fraqueza, nem falta de coragem, nem um defeito de caráter. É um mecanismo profundamente humano, estudado há décadas por diferentes campos que tentam entender por que agimos contra nós mesmos quando o medo da exclusão aparece.

Existe uma diferença entre as regras que um grupo nos impõe para que sejamos aceitos e aquilo que, de fato, reconhecemos como verdadeiro dentro de nós. A primeira nos mantém dentro de um sistema; a segunda nos ajuda a nos tornarmos quem realmente somos. E o desconforto que sentimos quando escolhemos a primeira em detrimento da segunda tem um nome: é o preço de nos afastarmos de nós mesmos para não sermos deixados de fora.

Entender isso já é o começo da mudança. Porque quando percebemos que estamos diante de um mecanismo — e não de uma falha pessoal — abrimos espaço para escolher de outro jeito da próxima vez.

Um caminho possível

Ninguém precisa se tornar rebelde nem romper com tudo de uma vez para recuperar sua integridade. A liberdade começa em um movimento mais simples e mais silencioso: reconhecer, no momento da escolha, qual voz está falando.

Da próxima vez que você sentir aquele aperto no peito, aquela sensação de estar "atuando" ou "se dobrando" para caber em algum lugar, tente parar por um instante e se perguntar:

Isso que estou defendendo agora é realmente meu — ou é uma regra que aprendi para não ser excluído?

Só essa pergunta, feita com honestidade, já começa a abrir uma fresta. Porque o primeiro passo para não trair a si mesmo não é ter todas as respostas prontas — é apenas notar, com coragem, quando estamos prestes a fazê-lo.


Você já sentiu que precisou silenciar algo essencial em você para se manter "encaixado" em algum lugar — no trabalho, na família ou em um relacionamento? Conte aqui nos comentários.

Uma reflexão para você: Será que você carrega alguém no coração e na cabeça e sente culpa por não ter escolhido o amor?

Se isso toca seu coração, chegou a hora de falar sobre isso, entre em contato e marque seu horário.

Cida Medeiros


Quando deixamos de ocupar o nosso lugar


 

Quando deixamos de ocupar o nosso lugar

Alguns atendimentos terminam quando a pessoa vai embora.

Outros permanecem conosco por dias, porque despertam uma pergunta que ultrapassa aquela história e passa a falar da condição humana.

Nesta semana, vivi um desses encontros.

Enquanto acompanhava uma cliente em seu processo terapêutico, ela relatava um conflito intenso com a irmã. A narrativa era conhecida: ressentimentos antigos, dificuldades de convivência, diferenças de personalidade e a sensação de que a irmã sempre havia sido "o problema" da família.

No entanto, à medida que o trabalho avançava, percebi que a questão talvez não estivesse apenas na relação entre as duas irmãs.

Havia algo mais profundo.

Pouco a pouco, tornou-se evidente que aquela mulher havia aprendido, muito cedo, a ocupar um lugar que não era o seu. Embora fosse irmã, relacionava-se como se fosse mãe. Protegia, preocupava-se, carregava responsabilidades, tentava organizar a vida da outra e sofria por um destino que não lhe pertencia.

Naquele momento, uma pergunta surgiu dentro de mim:

Como alguém pode passar tantos anos sem experimentar, de fato, o que significa simplesmente ser irmã?

Essa pergunta nos conduz a uma reflexão que vai muito além de uma única família.

Em muitas histórias, encontramos filhos que se tornam pais dos próprios pais. Irmãos que assumem funções parentais. Parceiros que passam a cuidar um do outro como se fossem responsáveis pela felicidade, pelas escolhas ou pelo destino da pessoa amada.

Quando isso acontece, as relações deixam de ser horizontais. O afeto começa a se misturar com o peso. O cuidado transforma-se em obrigação. A proximidade cede lugar ao controle, à culpa, à exaustão ou ao ressentimento.

Sob um olhar sistêmico, esse movimento revela que, muitas vezes, o sofrimento não nasce apenas das pessoas envolvidas, mas da forma como os lugares e as responsabilidades foram sendo ocupados ao longo da história familiar. Não se trata de procurar culpados, mas de compreender padrões que podem atravessar gerações e influenciar, silenciosamente, a maneira como nos relacionamos.

Ao mesmo tempo, esse processo também pode ser compreendido por outras lentes.

Sabemos que o corpo precisa sentir segurança antes que a mente consiga acessar novas possibilidades de percepção. Por isso, antes de qualquer investigação mais profunda, procuro favorecer um estado de presença, regulação, conexão e grounding. Quando o corpo encontra um pouco mais de estabilidade, aquilo que antes parecia apenas um conflito pode revelar significados que estavam ocultos.

A partir daí, outro aspecto tornou-se evidente.

Grande parte do sofrimento daquela mulher não estava apenas na irmã, mas na luta constante para que ela fosse diferente do que era.

Nesse ponto, há uma compreensão que considero preciosa em minha prática: aceitar não significa concordar com tudo, aprovar comportamentos ou desistir de estabelecer limites. Significa reconhecer a realidade como ela se apresenta, para que deixemos de desperdiçar energia tentando controlar aquilo que não está sob nosso domínio e possamos escolher, com maior liberdade, como desejamos viver.

Também emergiram aspectos mais silenciosos, ligados àquilo que não reconhecemos com facilidade em nós mesmos.

Com frequência, aquilo que mais nos mobiliza no outro pode iluminar partes de nós mesmos que ainda não foram reconhecidas, compreendidas ou integradas. Esse não é um convite à culpa, mas ao autoconhecimento. Quando deixamos de projetar, abrimos espaço para enxergar a complexidade da nossa própria humanidade.

Ao final do atendimento, a grande transformação não foi mudar a irmã.

Nem convencer alguém de que estava certo ou errado.

O verdadeiro movimento aconteceu quando minha cliente começou a experimentar, ainda que de forma inicial, a possibilidade de devolver à irmã o próprio destino e de retornar ao seu lugar.

Às vezes, a paz não nasce porque os outros mudaram.

Ela nasce quando deixamos de carregar aquilo que nunca foi nosso.

Essa experiência reforçou, mais uma vez, uma convicção que acompanha minha prática clínica: o sofrimento humano dificilmente cabe dentro de uma única teoria. Cada pessoa é um universo singular. Em alguns momentos, o olhar sistêmico amplia a compreensão dos vínculos; em outros, a regulação do corpo e do sistema nervoso torna-se essencial; em outros ainda, o autoconhecimento, a aceitação, a presença e a consciência oferecem caminhos complementares.

Nenhuma dessas perspectivas precisa competir entre si.

Quando dialogam com respeito e coerência, tornam-se diferentes formas de iluminar uma mesma experiência humana. É esse diálogo entre olhares que sustenta minha forma de trabalhar: uma psicoterapia integrativa e sistêmica, que se permite recorrer a diferentes caminhos conforme o que cada pessoa, em cada momento, precisa.

Talvez essa seja uma das tarefas mais delicadas do processo terapêutico: ajudar alguém a reencontrar o seu lugar, sem precisar abandonar quem ama, mas também sem continuar vivendo uma história que já não lhe pertence.

Este ensaio foi inspirado em reflexões surgidas a partir de um atendimento clínico, no qual diferentes abordagens dialogaram entre si. Todos os elementos que possam identificar pessoas ou situações foram modificados ou omitidos para preservar integralmente a privacidade e a confidencialidade da experiência.


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A "Indiferença" que Salva: Quando o Cuidado se Torna Sobrevivência

 


A "Indiferença" que Salva: Quando o Cuidado se Torna Sobrevivência


No meu espaço terapêutico, recebo frequentemente profissionais da educação que chegam à exaustão. Recentemente, acompanhei o processo de uma querida educadora que definiu seu momento atual com uma frase que carrega um peso imenso: "Eu não me importo mais como antes".

No início, esse silêncio emocional vinha acompanhado de uma culpa paralisante. Ela se comparava com a profissional de anos atrás — aquela que levava as dores dos alunos para casa, perdia o sono na madrugada pensando em estratégias e, literalmente, entregava a alma em sala de aula.

Mas, aqui no meu espaço de atendimento, aprendemos a ler essa culpa sob uma ótica mais compassiva.


A Metáfora do Jardineiro e o Solo Estéril


Imagine um jardineiro que, por anos, dedicou-se a cultivar um jardim com todo o amor do mundo. Ele levava água fresca, podava com cuidado e protegia as flores de qualquer ameaça. Mas, naquele solo específico, o clima era hostil, a terra estava árida e, em vez de gratidão ou brotos, ele recebia apenas ventos cortantes e pedras.


Com o tempo, o jardineiro percebeu que, se continuasse a entregar toda a sua água vital para aquele solo incapaz de absorver, ele também secaria. Então, ele começou a usar uma proteção: um vidro translúcido que permitia ver as plantas, mas impedia que as tempestades externas o alcançassem. Muitos, ao olharem de fora, chamaram isso de "indiferença". Mas, na verdade, era o que restava da sua capacidade de se manter em pé.


O que o meu espaço terapêutico me ensinou sobre esse fenômeno


Ao aprofundarmos essa "falta de cuidado" em nossos atendimentos, percebemos que ela não é uma falha de caráter, mas uma resposta de proteção do seu psiquismo.


  • O "não se importar" é um limite que nasce da necessidade de sobrevivência: Quando a entrega se torna um terreno de abuso, a mente cria a apatia como forma de criar distância. O que muitos chamam de indiferença é, na verdade, a única forma de conseguir continuar exercendo a profissão sem desmoronar.

  • O luto pela "antiga versão" de si: Parte da dor não é pelo aluno, mas pela perda da identidade de "educadora salvadora". Trabalhamos a aceitação de que você não perdeu o amor pela educação; você apenas perdeu a ingenuidade sobre o custo de se anular.

  • A transição para o "essencialismo profissional": Nas sessões, transformamos o "fazer o possível" em uma meta de saúde mental. Hoje, você pode entregar o conteúdo, exercer a ética e o zelo necessário, sem precisar entregar a sua estabilidade emocional.


Reflexão para o seu momento


Em um momento de sessão, trouxe a seguinte perspectiva: "Você está tentando ser a educadora que você foi para um ambiente que não valorizou essa entrega. Mudar não é se tornar uma profissional pior; é tornar-se uma profissional que consegue durar."


Sob a ótica da ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso), estamos falando de flexibilidade psicológica. Muitas vezes, a sua mente está criando um distanciamento saudável para evitar a desregulação. E, na Visão Sistêmica, compreendemos que o apego inseguro — forjado por demandas exaustivas — precisa ser reconfigurado: você não precisa se destruir para ser uma profissional ética.


Hoje, no meu espaço de atendimento, observo que, quando a culpa dá lugar a essa compreensão, surge uma nova liberdade. O valor do seu trabalho não está no quanto você se sacrifica, mas na qualidade do que você oferece mantendo a si mesma preservada.


Se você se sente nesse lugar de "desligamento", saiba que isso pode ser o seu limite gritando para ser ouvido. Deixar de se importar com o que é tóxico é, muitas vezes, o primeiro passo para voltar a se importar com a única pessoa que estará com você a vida toda: você mesma.


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Leia Também: Consideração como medida certa do respeito


Veja também pela perspectiva sistêmica: O Peso das Dinâmicas Ocultas











Onde a Alma Pousa quando o Mundo lá Fora está em Guerra

 


Onde a Alma Pousa quando o Mundo lá Fora está em Guerra


Ao observar os caminhos percorridos pelo Caleidoscópio do Saber, percebi uma presença silenciosa e constante: muitos de vocês que leem estas linhas encontram-se hoje em terras distantes, habitando solos que enfrentam momentos de grande turbulência e incerteza.


Distantes da origem, muitos sentem o peso de viver em um território onde o ar parece denso e o amanhã é uma interrogação constante. Sinto que é preciso honrar essa jornada.


A Metáfora do Pássaro e a Corrente de Ar


Imagine um pássaro que, em sua migração, precisa atravessar uma corrente de vento inesperada e severa. O voo, antes sereno, torna-se uma luta contra as forças externas. Se o pássaro tentar lutar contra a tempestade usando apenas a força das asas, ele se exaurirá rapidamente. Mas, se ele puder acessar a sabedoria da sua própria estrutura — a leveza dos seus ossos, a precisão do seu instinto e a memória de milênios de voos ancestrais — ele aprende a navegar a tempestade, usando a própria corrente de ar para manter o equilíbrio, sem deixar de ser quem ele é.

Muitos de vocês estão, neste momento, navegando essa corrente.


Um Olhar que Acolhe a Integridade


Ao longo dos meus trinta anos de prática, aprendi que a nossa psique não precisa ser refém da geografia. Esta visão que trago aqui — e que sustenta a essência da minha Clínica da Alma — nasceu de uma integração profunda entre a Visão Sistêmica, que nos lembra do nosso lugar e do que nos antecede; a Neurociência do Trauma e a Teoria Polivagal, que nos ensinam como o corpo busca segurança quando o mundo se torna uma ameaça; além da Fenomenologia, que nos convida a apenas observar o que é, sem julgamentos. Complemento isso com a ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso), que nos convida a agir de acordo com o que é essencial, mesmo diante do desconforto.


Quando falamos de uma "Consciência da Alma", estamos falando de um lugar onde você pode ser o observador da própria experiência. Você não precisa ser o conflito que o cerca. Você pode ser a presença que o testemunha, mantendo a sua integridade, sua dignidade e sua história, mesmo quando o solo sob seus pés parece instável.


Para sua reflexão


Se hoje o mundo externo — ou a sua percepção dele — parece exigir uma prontidão constante, eu convido você a parar e sentir:


O que, dentro de você, permanece intacto, independentemente de onde seu corpo esteja localizado no mapa?


Ao identificar esse lugar de paz, você deixa de ser apenas alguém que está "longe de casa" e passa a ser alguém que carrega a casa dentro de si. A Clínica da Alma existe para que possamos, juntos, acessar esse território inabalável.


Leia: A ponte entre Neurociência e a Constelações


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Onde você se sente em casa: o reencontro com o seu lugar no mundo




Onde você se sente em casa: o reencontro com o seu lugar no mundo


Por Cida Medeiros

Às vezes, a vida parece um corredor longo, feito de portas que não se abrem. Você caminha, observa as janelas dos outros, vê a luz que emana de seus lares e se pergunta: "Por que eu continuo de fora?" A sensação de não pertencimento é uma das dores mais profundas que um ser humano pode carregar; é como se estivéssemos flutuando em um espaço vazio, sem uma raiz que nos prenda ao solo.


Essa solidão, contudo, não é um erro de fabricação na sua alma. Muitas vezes, esse sentimento é um eco de padrões sistêmicos, uma herança que atravessa gerações. Quando olhamos pela lente sistêmica, percebemos que o seu lugar no mundo foi, em parte, desenhado pelos vínculos que você estabeleceu desde o início da sua vida.


A metáfora do barco e o ancoradouro sagrado


Imagine um barco que passou anos navegando por águas revoltas. Ele aprendeu a se mover, a contornar tempestades e a evitar o choque contra as pedras. Em cada porto que visitava, a tripulação, por medo de novas tormentas, não baixava a âncora; eles apenas amarravam o barco com cordas frágeis, prontas para serem cortadas ao menor sinal de perigo.


Com o tempo, o barco começou a acreditar que sua natureza era ser um andarilho, que o movimento constante era a única forma de sobrevivência. Mas o barco, em seu âmago, sentia falta da segurança de um ancoradouro onde pudesse ser cuidado, limpo e, finalmente, repousar em águas calmas. Ele não sabia, mas as cordas que ele mesmo mantinha tão curtas eram as mesmas que o impediam de sentir a firmeza do solo.


Reflexão Terapêutica: Às vezes, o que chamamos de falta de pertencimento é, na verdade, uma estratégia de proteção. O "não pertencer" se tornou um escudo para não se arriscar a ser ferido novamente.


Base Teórica: Na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), chamamos isso de "fusão" com a história de que "é perigoso criar raízes". A flexibilidade psicológica nasce quando paramos de lutar contra o medo da exclusão e começamos a agir em direção ao valor da conexão, mesmo sentindo o tremor das mãos.


Na Visão sistêmica, podemos nos mover em direção ao amor interrompido e restabelecer o lugar de pertencimento.


Como o seu corpo entende o pertencimento


A neuropsicologia do apego nos mostra que a sensação de "estar em casa" não é apenas um conceito romântico; é um estado fisiológico. Quando nossas necessidades de vinculação foram negligenciadas lá atrás, nosso cérebro aprendeu a manter o sistema de "luta ou fuga" em alerta máximo.


O sentimento de falta de lugar, muitas vezes, é o seu sistema nervoso dizendo que, para ele, "segurança" é sinônimo de "distância". Quando você sente que não pertence, é como se seu detector interno de perigo estivesse operando em uma frequência alta demais. O caminho para mudar isso não é ignorar a dor, mas aprender a habitá-la. A fenomenologia nos ensina a observar essa angústia como ela é: uma experiência que passa, não uma verdade absoluta sobre quem você é.


O convite para o seu lugar


Pertencer não é sobre encontrar um grupo que aceite tudo o que você é; é sobre permitir-se ser visto em sua vulnerabilidade, confiando que, mesmo que o mundo lá fora seja incerto, existe um ancoradouro seguro dentro de você, construído através da sua própria presença.


Eu convido você a olhar para o seu interior não como um lugar de isolamento, mas como o solo fértil onde suas novas conexões irão brotar. Você não precisa caminhar sozinho nesse processo de reconstrução das suas raízes.


Você não precisa carregar essa sensação sozinho. Vamos conversar sobre o seu processo de autoconhecimento? Envie uma mensagem pelo formulário do meu blog ou me siga no Instagram em @cida2016medeiros.



Veja Também: 

O Lugar que pertence






O Velho Artesão e a Tigela Imperfeita


O Velho Artesão e a Tigela Imperfeita

Conta-se que havia um velho artesão conhecido por fabricar as mais belas tigelas de cerâmica da região.

Certo dia, um jovem aprendiz, frustrado com seus próprios erros, perguntou:

— Mestre, como o senhor consegue criar algo tão valioso?

O ancião sorriu e colocou diante dele uma tigela rachada.

— O que você vê?

— Uma peça defeituosa — respondeu o rapaz.

O mestre então encheu a tigela com água e a colocou sob a luz do sol. Os raios atravessavam as pequenas fissuras, criando desenhos luminosos sobre a mesa.

— Agora, o que você vê?

O jovem ficou em silêncio.

— Vejo algo belo.

O artesão continuou:

— Durante muitos anos, eu também enxerguei apenas as rachaduras. Queria ser perfeito, queria evitar os erros e esconder minhas marcas. Mas um dia compreendi que o valor de uma tigela não está em ser impecável. Está em sua capacidade de servir.

Fez uma pausa e acrescentou:

— As pessoas também são assim. Não precisam esperar que todas as suas dores desapareçam para amar, trabalhar, aprender ou cuidar de quem importa. O valor de uma vida não é medido pela ausência de feridas, mas pela direção que escolhemos seguir.

— Então as rachaduras não diminuem o nosso valor?

O velho sorriu:

— Não. Elas apenas nos lembram de que somos humanos. Uma vida valiosa não é uma vida perfeita. É uma vida vivida com presença, coragem e propósito.

E, enquanto observavam a luz dançar através das fissuras, o jovem começou a compreender que talvez não precisasse consertar tudo em si mesmo para merecer existir plenamente.


Reflexão

Na Terapia que tem incluem a importância de valores, aprendemos que os mesmos não são metas a serem alcançadas, mas direções para serem vividas. Podemos sentir medo e ainda assim agir com amor. Podemos carregar tristeza e continuar cultivando aquilo que é importante.

Talvez a pergunta mais transformadora não seja:

"Quando deixarei de sentir dor?"

Mas sim:

"Que tipo de pessoa desejo ser, mesmo quando a dor está presente?"

Porque uma vida com sentido não nasce da perfeição, mas do compromisso diário com aquilo que realmente tem valor.

Cida Medeiros
Caleidoscópio do Saber 

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Entre a Psicoterapia e a Espiritualidade: O reencontro com o Estado de Ananda

 

"Faço parte desse movimento desde 2012, quando participei de um encontro na Unipaz Vila Mariana — que, na época, funcionava em outro endereço. Eu era aspirante do Colégio Internacional de Terapeutas (CIT) e, como caminhante desse movimento, participava assiduamente das reuniões. Naquela ocasião, Elo Teixeira e seu grupo, vindos de Campinas/SP, vieram falar sobre a iniciativa e oferecer a Deeksha. Foi algo incrível; senti uma paz profunda e me encantei ao ouvir como a Elo entrou em contato com a Deeksha, sua experiência na Índia e o significado dessa prática. Desde então, passei a frequentar as rodas de Deeksha em São Paulo como um suporte espiritual pessoal.

Muitas mudanças ocorreram ao longo desses anos. Fui doadora de Deeksha por muito tempo e adorava os encontros em grupo. Em 2017, fui à Índia e participei de um Darshan com Sri Bhagavan e Sri Amma; foi uma vivência transformadora e indescritível, marcada por bênçãos e curas profundas.

Desde que surgiu o programa — que começou como '74.000 Deeksha Yagna' e evoluiu para '81.000 Deeksha Yagna' —, vivi momentos maravilhosos, difíceis de colocar em palavras. No ano passado, devido às exigências do último ano da graduação em Psicologia, não pude participar do programa nem das atividades de transferência do Estado de Ananda, exceto em ocasiões pontuais, e percebi claramente a diferença que esse afastamento fez.

Este ano, pela Graça Divina, retornei ao programa. Já estou acompanhando novamente, aos sábados, as aulas direto da Índia, que trazem ensinamentos e processos profundos. A cada mês, temos um Darshan com Bhagavan — momentos extraordinários em que vivenciamos desde estados profundos de paz e felicidade até experiências místicas que aprofundam a compreensão sobre os ensinamentos espirituais.

Fui convidada pela Dra. Katia Caiano a compartilhar minha experiência, e você pode conferir o relato completo neste link: Click Aqui. Se tiver interesse em participar da transferência do Estado de Ananda, será muito bem-vindo(a); aqui está o link de acesso: link. Caso tenha alguma dúvida, terei prazer em responder. Basta enviar uma mensagem pelo formulário do blog ou entrar em contato pelas minhas redes sociais."

Veja Mais nesse Link: Sri Amma Bhagavan

Se sua mente não lhe deixa em paz, se esta em estado de sofrimento, junte-se a nós, é uma atividade gratuita, aberta a todos, veja os horarios e acesse os links: Transferência de Estado de Ananda

Fiquei um período na Índia, poderá gostar desse vivência: Click aqui