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Respeito nos relacionamentos: como padrões da família de origem podem afetar o casal

 

"Mãos unidas nas costas, representando um casal que se apoia e busca soluções para superar as diferenças."



Respeito nos relacionamentos: quando o problema não está apenas no outro

Muitas pessoas procuram ajuda terapêutica com uma queixa muito comum:

“Meu companheiro não me respeita.”

Essa era exatamente a dor de uma cliente que me procurou.
Ela relatava conflitos constantes no relacionamento, discussões frequentes e uma sensação de desvalorização dentro da relação.

O sofrimento era real e profundo.

Decidimos então iniciar um processo com dez encontros terapêuticos, focados em compreender a dinâmica do relacionamento.

No início, como acontece com muitas pessoas, o olhar dela estava voltado principalmente para o comportamento do parceiro.

Mas, à medida que o trabalho avançava, algo começou a se revelar.


Quando percebemos nossos próprios padrões

Com o aprofundamento das sessões, ela começou a perceber algo que nunca havia observado antes:

o quanto ela também não respeitava o companheiro.

E, talvez ainda mais importante:

o quanto ela também não se respeitava.

Essa percepção não veio como culpa ou julgamento.

Veio como consciência.

Em muitos casos, quando investigamos os conflitos de um relacionamento, descobrimos que eles não começaram ali.

Eles fazem parte de padrões mais antigos que carregamos inconscientemente.


A influência da família de origem nos relacionamentos

Durante o processo terapêutico, ficou claro que aquele padrão de conflito e desrespeito estava profundamente ligado à história familiar dela.

Ela começou a reconhecer que a forma como se relacionava reproduzia, de maneira inconsciente, a dinâmica que havia observado entre seus próprios pais.

Esse tipo de repetição é muito comum.

Nos sistemas familiares, frequentemente mantemos lealdades invisíveis aos modelos que aprendemos na infância.

Mesmo quando esses modelos geram sofrimento.


Quando o medo de perder o pertencimento aparece

Em uma das sessões mais profundas do processo, realizamos um trabalho em estado ampliado de consciência.

Nesse momento, ela entrou em contato com uma crença muito importante que sustentava aquele padrão:

o medo inconsciente de deixar de pertencer à sua família de origem se o relacionamento desse certo.

Essa percepção trouxe uma compreensão muito libertadora.

Muitas vezes, sem perceber, permanecemos ligados a padrões familiares porque acreditamos que, se fizermos diferente, estaremos traindo nossa história.

Quando essa dinâmica se torna consciente, algo começa a se reorganizar internamente.


Triangulações que aumentam os conflitos

Outro ponto importante que surgiu no processo foi a presença de uma triangulação no relacionamento.

Sempre que surgiam conflitos com o companheiro, ela levava as situações para uma amiga muito próxima.

A amiga acabava, involuntariamente, se tornando parte da dinâmica do casal.

Esse tipo de triangulação costuma aumentar as tensões e dificultar o equilíbrio da relação.

Quando ela percebeu esse movimento, algo começou a mudar.

A pressão emocional começou a diminuir.


O alívio que aparece quando os emaranhamentos se dissolvem

À medida que os emaranhamentos familiares iam sendo compreendidos e reorganizados, ela começou a perceber algo muito significativo.

O corpo começou a sentir alívio.

Em algumas sessões, ela dizia:

“Eu sinto como se estivesse saindo um peso imenso das minhas costas.”

Esse tipo de sensação é muito comum quando padrões profundos começam a se dissolver.

Não é apenas uma mudança racional.

É uma reorganização emocional e sistêmica.

Com o tempo, ela também percebeu melhorias em outras áreas da vida.

Inclusive nas relações dentro da empresa onde trabalhava.


O respeito como base das relações

Essa experiência ilustra algo muito profundo sobre os relacionamentos humanos.

Muitas vezes acreditamos que o problema está apenas no outro.

Mas, quando começamos a olhar com mais profundidade, percebemos que o respeito começa dentro de nós.

Bert Hellinger expressa isso de forma muito clara:

“Respeitar significa reconhecer que o outro é como é — e que isso está certo da maneira como é.”

Quando o respeito aparece, surge também uma distância saudável entre as pessoas.

O outro não precisa mais ser controlado, corrigido ou moldado.

Cada um pode ocupar o seu lugar.

E, quando isso acontece, algo muda profundamente nas relações.

Há menos peso.

Menos luta.

Mais tranquilidade.

Porque, como dizia Hellinger:

o amor e a alegria são tranquilos — como o respeito.


Leia também: 

Sobre o Respeito



O Palácio de Vidro e o Ouro da Realidade




O Palácio de Vidro e o Ouro da Realidade


Quando a idealização drena nossa força vital

Às vezes, nos perdemos em "palácios de vidro" — estruturas mentais belas, porém frágeis, que flutuam sobre o medo de tocar o chão da realidade. Vivemos amores de "orvalho", conexões que prometem o céu, mas que não sustentam o peso do pão e do vinho no dia a dia. Como Guardiã de Saberes, convido você a olhar para onde sua energia está sendo investida.

O Eco que Alimenta o Ilusório

Na metáfora do Alquimista e da Senhora das Minas, percebemos que o príncipe (a nossa parte idealizadora ou as relações narcísicas que permitimos) sobrevive do "ouro" que extraímos com esforço da nossa própria terra. Quando olhamos demais para o alto, em busca de uma promessa etérea, nossas próprias "minas" — nossa saúde, nossos valores e projetos — começam a inundar [02:21].

Reflexão Terapêutica: A soberania não nasce do fechamento, mas do posicionamento. A Senhora das Minas não deixou de ouvir a música, ela apenas fincou seu cajado de ferro no solo e reivindicou o que era seu por direito [02:50]. Ela escolheu a substância em vez da fumaça.

Base Teórica:

Sob a luz da ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso), vemos aqui a importância da desfusão cognitiva. Precisamos nos desatrelar das narrativas internas que nos mantêm presos em redomas de espelhos [00:31]. A Visão Sistêmica nos ensina que, ao assumirmos nosso lugar e nossa força ("fincar o cajado"), forçamos o que é ilusório a descer à terra ou se dissipar. É a neuropsicologia do Apego Seguro em ação: só quem tem uma base sólida (as raízes que conversam com o centro do mundo) consegue discernir entre uma conexão real e um eco que se alimenta da nossa vitalidade [01:02].

Que possamos, como a Senhora das Minas, voltar para nossa forja interior, sabendo que o ouro lapidado — nossa essência trabalhada e consciente — atrai o que é sólido, digno e real.



Se este conto ressoou em sua alma, vamos aprofundar essa conversa? Compartilhe suas percepções comigo no Instagram @cida2016medeiros ou, se sentir que é o momento de lapidar seu próprio ouro em um processo acompanhado, preencha o Formulário do Blog.


Cida Medeiros

Onde Moram as Lembranças quando a Casa se Vai? O Desamparo e a Clínica da Alma

"Um homem em seu outono, observando o horizonte onde o sol se põe. Uma imagem que evoca o silêncio da alma diante das perdas e a força da negação como um último refúgio de proteção. O que resta quando as paredes externas caem?"


Onde Moram as Lembranças quando a Casa se Vai? O Desamparo e a Clínica da Alma

A vida, em sua crueza, não nos pede licença para manifestar suas tragédias. Recentemente, presenciei uma cena que me convocou não apenas como terapeuta, mas como cidadã e testemunha do tempo: um senhor de 84 anos, cercado pela autoridade policial e pelo olhar técnico da assistência social, vendo sua história ser resumida a pertences espalhados em uma calçada fria.

O que mais me tocou, no entanto, não foi apenas a imagem do despejo, mas o que ouvi nos bastidores daquele prédio. Em uma conversa paralela com um morador que acompanhou o processo, o relato era de uma tristeza profunda: "Nós tentamos avisar, Cida. Ele foi orientado por semanas, tentamos mostrar o que estava acontecendo, mas ele simplesmente relutava em aceitar. Parecia que ele não via ou não queria ver".

Esse relato muda tudo. Ele nos mostra que a negação não era falta de informação, mas uma barreira intransponível da psique. Ele seria encaminhado a um abrigo provisório via CREAS/CRAS e, ali, entre o som da sirene e o inventário burocrático, vi o choque entre o mundo interno — a resistência absoluta daquele homem — e o mundo real, representado pela necessidade de intervenção do Estado.

A Negação como Altar de Sobrevivência Biológica

Para um leitor leigo, a resistência desse senhor pode parecer teimosia ou "cabeça dura". No entanto, quando mergulhamos na Neuropsicologia Afetiva, compreendemos que o que testemunhamos foi um sistema nervoso tentando desesperadamente sobreviver a um colapso.

Aquele senhor não estava apenas "negando o que estava posto, como se estivesse mentindo" para os vizinhos ou para si mesmo. Ele estava sob o domínio do que chamamos de Vago Dorsal, um estado de imobilização do sistema nervoso autônomo.

Quando a dor da humilhação e da perda excede a nossa capacidade de processamento emocional, o cérebro ativa um mecanismo de shutdown. É como se um disjuntor caísse para evitar que a fiação interna queime. Nesse estado, a negação funciona como uma anestesia psíquica. Aceitar o aviso dos moradores ou reconhecer aqueles móveis na calçada significaria aceitar a desintegração de sua própria identidade. Naquele instante, a negação era o seu último refúgio de dignidade.

O Amparo que a Família não Deu: Uma Visão Sistêmica

Sob o olhar da Visão Sistêmica, compreendemos que nenhum ser humano chega a esse estado de abandono por um evento isolado. Somos fios em uma imensa teia familiar. Quando os vínculos primários — aqueles que deveriam formar nossa "rede de segurança" — se rompem ou nunca se consolidaram, o indivíduo fica perigosamente "exposto" ao relento do mundo.

A história desse senhor, marcada pela ausência de contato com o filho e pelo isolamento dos netos, revela o que chamamos de transmissão transgeracional de traumas. O desamparo que ele vive hoje é o eco de abandonos e exclusões que ocorreram décadas atrás. Na ausência da rede familiar, o Estado intervém com sua "mão de ferro" (polícia e assistência social) para oferecer o mínimo de segurança física. Mas o Estado, por mais eficiente que seja, não consegue prover a segurança emocional que só o vínculo humano e o pertencimento oferecem.

A Clínica da Alma diante do Protocolo Institucional

Como uma Guardiã de Saberes, observo que existe um limite onde a palavra terapêutica silencia e a ação social assume. A intervenção do CRAS é vital para que ele tenha onde dormir e o que comer, mas o que acontece com o espírito de um homem quando ele perde o direito de habitar sua própria história?

A Fenomenologia nos convida a suspender o julgamento. Não importa se ele "deveria" ter pago o aluguel ou se "deveria" ter ouvido os vizinhos. O que importa é o fenômeno do ser humano ali, naquele momento, perdendo o chão. Quando o Estado recolhe seus pertences, está recolhendo os fragmentos de uma vida que ninguém mais quis carregar.

Reflexão Terapêutica: O Porto e a Tempestade

Imagine um velho navio que navegou por águas turbulentas durante oitenta e quatro anos. Suas âncoras foram cortadas uma a uma — pelos conflitos familiares, pelas mágoas não resolvidas, pelo tempo. Um dia, uma tempestade avassaladora o joga contra o cais de um porto desconhecido.

O cais é feito de concreto: é duro, frio e impessoal. O navio resiste ao impacto, tenta voltar para o mar revolto porque aquele porto não lhe é familiar. Ele não percebe que a dureza daquele concreto é a única coisa que o impede de naufragar definitivamente. O porto (as instituições) não tem o calor de um lar, mas é o amparo possível para quem já não consegue mais navegar sozinho.

O Papel da ACT: Aceitação não é Concordância

Muitas vezes, confundimos aceitação com passividade ou concordância. Na ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso), a aceitação é a disposição de abrir espaço para a experiência presente, por mais dolorosa que seja, para que possamos agir de acordo com nossos valores.

No entanto, como mencionei, no momento do trauma agudo, o ser humano não tem "flexibilidade psicológica". Ele está "travado". A aceitação, nesse contexto, não pode ser exigida; ela precisa ser construída com paciência. O trabalho terapêutico, em situações assim, não busca "mudar os fatos", mas ajudar o indivíduo a encontrar um pequeno solo firme dentro de si, onde ele possa, eventualmente, chorar o que foi perdido sem se desintegrar.

Por que Precisamos Olhar para Isso? 

Escrevo este relato — e busco que ele chegue ao maior número de pessoas através da tecnologia — para que não olhemos para essas cenas como meros "casos de polícia". São vidas que clamam por humanidade. A minha presença ali, a tentativa de ajuda dos vizinhos e a sua leitura agora, servem para testemunhar que aquele homem existe e que sua dor tem um sentido.

O autoconhecimento e o cuidado com os vínculos não são luxos para quem tem tempo; são ferramentas de sobrevivência para a velhice. Trabalhamos nossas sombras hoje, buscamos a reconciliação com nossos filhos e pais agora, para que não tenhamos que enfrentar o inverno da vida em total deserto.

Que possamos honrar as instituições que acolhem o que a sociedade muitas vezes descarta, mas que nunca esqueçamos de cultivar a compaixão por aqueles que, em meio ao caos, só conseguem dizer: "isso não é meu".

Com verdade e profunda sobriedade,

Cida Medeiros

Terapeuta Integrativa e Caminhante Sistêmica


Notas de Rodapé e Referências Científicas (Para estudo profundo)

  1. Teoria do Apego: BOWLBY, John. Uma Base Segura. Sobre como a falta de figuras de apego na velhice desregula o sistema de segurança.

  2. Trauma e o Corpo: VAN DER KOLK, Bessel. O Corpo Guarda as Marcas. Explica o estado de desligamento (numbing) em situações de despejo e humilhação.

  3. Teoria Polivagal: PORGES, Stephen. A biologia da segurança e a resposta de imobilização (Vago Dorsal).

  4. ACT: HAYES, Steven C. Uma Mente Livre. Sobre a importância da flexibilidade psicológica e os riscos da evitação experiencial.

  5. Fenomenologia: HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. O conceito de "ser-no-mundo" e o desamparo existencial.



Se esta história tocou você, talvez seja o momento de olhar para seus próprios vínculos. O autoconhecimento é a base para uma vida com pertencimento.

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